Hackeando o espaço urbano
E se para salvar uma cidade decaída não tivéssemos de construir uma cara e nova estrutura – seu hardware, digamos -, mas reprogramar a infraestrutura existente? Mudar o software do lugar? Esta é a analogia usada por Marcus Westbury, fundador da Renew Newcastle, uma iniciativa inovadora que devolveu a vida a uma cidade fantasma da Austrália. Newcastle, que cresceu em torno da indústria do carvão e do aço, sofre de muitos dos problemas que atingiram as cidades do Cinturão da Ferrugem, nos EUA. Seus maiores empregadores fecharam as portas em meados do século passado, seus sistemas de transporte foram desmantelados e o comércio migrou para os subúrbios. O coração da cidade ficou vazio e abandonado.
Mas a Renew Newcastle mudou o quadro, facilitando a ocupação de espaços vazios por empreendedores e artistas para fazem uso criativo deles. O resultado? O site de viagens Lonely Planet recentemente nomeou a cidade como um dos dez melhores lugares para se visitar em 2011. Reproduzimos aqui um trecho de um artigo de Westbury no Grist, publicado originalmente na revista holandesa de arquitetura e design Volume:
“Precisamos começar reescrevendo, ou hackeando, o software para mudar não o que uma cidade é, mas como se comporta. Renew Newcastle, uma empresa sem fins lucrativos que fundamos em 2008, é um pedaço de software. É uma facilitadora. É uma interface entre o ambiente decadente e envelhecido e aqueles que querem usá-lo e ativá-lo. Ela conecta os muitos espaços da cidade com a paixão das pessoas que querem tentar e experimentar coisas neles. Facilitou mais de 60 projetos em mais de 30 espaços vazios. Sem construir, comprar ou possuir nada além de alguns computadores e mobília de segunda mão. Ela não financia coisas, apenas permite que elas aconteçam.
“A empresa fez o que fez mudando o software da cidade. Não da maneira lenta e tradicional, e mais difícil, de buscar o poder político e mudar as regras, as leis e reescrever o sistema de operação. Fez de um jeito mais fácil, mas menos óbvio – segiu o caminho da resistência mínima. Em vez de reescrever o sistema operacional, o hackeou e o fez funcionar de novos jeitos.
“A Renew Newcastle começou avaliando espaços e os termos pelos quais eles poderiam ficar disponíveis. Havia mais de 150 prédios vazios em Newcastle, poucos dos quais baratos ou simples de acessar. Estavam envolvidos em regras complexas – de incentivos fiscais ruins a leasings de longo prazo. A empresa trocou custos por segurança. Criamos novas regras, novos contratos, e convencemos os proprietários a ceder os espaços basicamente por um sistema de barganha – nós encontraríamos pessoas para limpá-los e fazê-los funcionar, e os donos podeiam retomá-los se e quando precisassem deles. Saímos fora do quadro legal padrão.
“Mas o espaço barato não é por si só suficiente. Não é o bastante mudar apenas quanto ele custa, mas também é vitalmente importante saber como ele se comporta face à iniciativa. A Renew Newcastle criou todo um sistema para baixar as barreiras à iniciativa e experimentação. Criamos outra camada – entre o sistema operacional e os usuários, para torná-lo mais simples de usar e mais fácil para permitir o experimento e o risco. Mais uma vez, seguimos os passos da resistência mínima. Decidimos tornar simples coisas que poderiam se tornar simples, e não bater de frente com o que é impenetravemente difícil. E conseguimos fazer o que é fácil, e não ficarmos esperando ideais.
“Fizemos a cidade funcionar para pessoas para as quais ela não funcionava há muito tempo. Pessoas sem capital e com renda incerta foram uma questão definitiva – fabricantes de queijo doméstico, artista e designers de moda, pequenos selos de música e fotógrafos do Flckr. Na verdade, fizemos um espaço físico funcionar como seus espaços virtuais funcionavam – fáceis de entrar e sair, abertos à experimentação e ao fracasso e, mais importante, cheio de ferramentas, estruturas e plugins destinados a tornar simples e barato fazer o que as pessoas têm paixão de fazer. Com o envelhecimento das cidades, o desafio nem sempre é reconstruí-las fisicamente, mas reimaginar como podem funcionar e se adaptar”.
Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/planetaurgente/cidade-como-sotfware-290714_post.shtml
Postado por: Bruna Paiva